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Saudade também envelhece?

Lá se vão 45 anos de saudade. Neste tempo todo, o  vazio que nunca se preenche vai ficando com novas formas, novas cores, novos significados. Se antes a dor era insuportável, agora é companheira de jornada.

Levo a saudade de meu pai onde quer que eu vá. Bem guardada. É como esses amuletos de réveillon que a gente põe na carteira, por via das dúvidas. Nem sempre me lembro que está lá, mas sempre que preciso, surge inteira, novinha em folha, bem na minha frente.

Saudade da boa é assim. Nunca envelhece. Parece até que fica mais bonita com o passar dos anos. As vezes precisa de manutenção. Mas nada que um polimento aqui, uma pintura ali, não resolva.

Dia dos pais está aí para isso. É dia de dar um trato na saudade.

Meu pai era homem do mundo. Olhava o mundo do melhor jeito, com curiosidade de menino. Adorava viajar. Não importava para onde. Me ensinou que a viagem acontece sempre dentro da gente.

E eu adorava ficar ao seu redor. Orbitava como se a energia daquele homem me protegesse e também me transformasse em um desbravador deste mundo que implorava para ser conhecido.

Já nas primeiras aulas de geografia, me desafiava a fazê-lo errar capitais e estados. Ceará? Fortaleza. Goiás? Goiânia. Espirito Santo? Porto Alegre….Errava de propósito e ria sua risada mais divertida….assim foi me ensinando que errar era parte do conhecimento. Aprendi todas as capitais e no meu sonho de criança decidi que ia conhecer todas elas. Hoje, Faltam poucas.

O destino quis que nossa convivência tivesse sido tão curta. E tantas vezes me perguntei como teria sido nossa história se tivéssemos tempo de descobrir nossos próprios defeitos. Mas não tivemos. Assim, sua imagem segue imaculada na minha memória. Como para todo menino, meu pai segue sendo o melhor do mundo. Segue sendo minha inspiração, fonte de sabedoria.

De nós dois, apenas eu segui envelhecendo pela vida.

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