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INVEJA: MAL-ESTAR INCONFESSÁVEL

A inveja não desfruta de boa reputação. Raramente confessada, ao sê-la, apresenta-se com uma conotação de “admiração” pelo outro por algum motivo plausível. A reconhecida “inveja saudável” ou “inveja branca”. Apesar das aparências, à luz da psicanálise, admiração e inveja não pertencem à mesma categoria de afetos.  Não é um sentimento simples, face às conexões com o desejo, o narcisismo, a agressividade, a astúcia, o roubo e a rapina. Seu objeto pode ser indeterminado, variando do “qualquer coisa” para o “tudo”.

A pós-freudiana Melaine Klein (1946-63), em seu livro “Inveja e Gratidão”, faz uma distinção entre inveja e ciúme, ressaltando que o primeiro é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável, sendo o impulso invejoso o de subtrair este algo ou de danificá-lo. Pressupõe a relação do individuo com uma só pessoa e remonta à mais arcaica e exclusiva relação com a mãe. O ciúme, por sua vez, é baseado na inveja, mas envolve uma relação com, pelo menos, duas pessoas. Refere-se ao amor que o indivíduo sente como lhe sendo devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de sê-lo, por seu rival. Baseado no senso comum, a concepção de ciúme se refere a um homem ou uma mulher que se sente privado, por outrem, da pessoa amada.

Por sua vez, Betty Joseph (1989), em “Equilíbrio psíquico e mudança psíquica”, preconiza que o ciúme, de modo geral, é considerado normal, por estar ele baseado em amor ou afeição por uma pessoa, o que o torna, em certa medida, tolerável e perdoável. No tocante à inveja, diferentemente, inveja-se o que a outra pessoa possui, sejam eles bens materiais, capacidades, conquistas, qualidades pessoais etc. A inveja envolve, em maior ou menor grau, uma qualidade espoliadora, ou pelo menos hostilidade para com as capacidades positivas de outra pessoa, ainda que isso não possa ser reconhecido.

Para a mesma autora, não é difícil reconhecer em nosso cotidiano sentimentos de ressentimento por alguém estar em posição privilegiada, de modo a estimular uma vaga hostilidade, rivalidade, competitividade, que se tornam problemáticos quando manifestados de forma intensa, motivando o invejoso a evocar críticas recorrentes. Este não reconhece algo ou alguém merecedor de elogio, valendo-se sempre de razões para duvidar do outro. Tendo-se em conta que, por vezes, dispomos de motivos para sermos criticados, a atitude invejosa pode estar subjacente a tais críticas e dúvidas.

Joseph (1989) ainda observa que, outra forma de inveja frequentemente expressa, é quando a pessoa deseja de forma perseverante obter o que outro possui ou o seu análogo, a exemplo de um carro, um emprego. Uma pessoa verdadeiramente invejosa não suporta o sucesso, a fruição, o gozo do outro. Não tolera que algo de bom lhe seja oferecido por outra pessoa, pois não pode usufruí-lo por não reconhecer suas boas qualidades, seu valor, de maneira a ser incapaz de experimentar e expressar gratidão, o que significa que sua capacidade de ter prazer e de amar sofre graves interferências. Tal atmosfera a impede de construir bons relacionamentos, desestabilizando seu mundo interno povoado por sentimentos de insegurança e inadequação que acabam por incrementar o ódio por outros que se mostrem mais confiantes e estáveis, instalando-se assim um círculo vicioso onde a insegurança fomenta a inveja. Estar consciente de sentimentos invejosos é aflitivo e desagradável, e a maioria das pessoas busca inconscientemente proteger-se por meio de manobras defensivas contra a vivência da inveja. Dentre tais defesas, com vista a evitar a inveja excessiva, é a de idealizar a pessoa que a provoca, sendo esta percebida como detentora de capacidades ou atributos marcantes que a distancia em muito do admirador, a ponto de não poder se estabelecer nenhuma comparação. Outro modo bastante familiar de defender-se da inveja é restringir contatos e evitar áreas de vivência que estimulem rivalidade e inveja, além daquele que busca sutilmente provocá-la em outros uma vez que estes se apercebam dos seus predicados e conquistas.

O psicanalista e filósofo Renato Mezan (1987), em “Os sentidos da paixão”, compreende que o objeto da inveja é um objeto imaginário ou fantasmático, algo que se supõe assegurar a seu detentor um estado de felicidade e que, se estivesse em mãos do invejoso, asseguraria a este último uma felicidade de mesmo quilate. O objeto invejado é invariavelmente um objeto idealizado, isto é, sobrevalorizado, no qual se supõe conter atributos extraordinários. Neste objeto idealizado, portanto, existe um fator que não provém do próprio objeto, mas sempre, e sem exceção, da fantasia do invejoso. Ao idealizar um objeto, o sujeito atribui a este um valor de perfeição.

A organização psíquica própria da inveja não é de fácil apreensão. No entanto, a teoria psicanalítica traz como proposta inquirir os nexos inconscientes motivacionais que a fazem aflorar em nossa vida cotidiana. Uma questão é como lidar com a inveja, domestica-la, uma vez que nascemos com uma potencialidade inexorável para a mesma e temos de vivencia-la como parte de nossas personalidades. Espera-se que o indivíduo disponha de suficiente afeto e amor, bem como calor humano e gratidão, de modo a mitigar sua rivalidade e sua inveja.

Aos que se sentem entrincheirados pela inveja e impotentes para lidar com este problema, a terapia psicanalítica proporciona a possibilidade de abertura para novos vértices de visualização de suas raízes, de forma a liberar amor, gratidão e consequente alívio, inserindo o sujeito num círculo mais benigno.

Sobre Marco Túlio Silva de Oliveira

Marco Túlio Silva de Oliveira
Psicólogo Clínico e Psicanalista CRP 06/113235 Tel: (11) 97044-0111

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