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SER, TER OU PARECER?

Temáticas filosóficas existenciais sempre implicaram em reflexões sobre valores éticos e morais a serem investidos pelo sujeito no curso de sua vida, tendo também em conta o reconhecimento do outro. Sem isto, o sujeito, refém de sua inerente vaidade, percebe-se, senão invisível, alguém desvalorizado, humilhado, parcamente admirado pela comunidade que o integra.

Uma revolução cultural, moral-comportamental, desenrola-se entre os séculos XX e XXI, e observa-se que a incerteza trágica shakespeariana de Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão”,  tornou-se um questionamento menos inquietante para o sujeito.

Primeiramente o indivíduo via-se instigado pelas possibilidades em Ser, uma vez que a notoriedade através do Ser era significativamente valorizada pela sociedade. Profissões tais como médico, advogado, professor, empresário, e outros, eram objeto de conquista, respeito e admiração. A vaidade e autoestima do sujeito cristalizava-se através do seu papel social. O seu poder econômico era de menos valia.

Posteriormente ocorre uma inversão, tendo como um dos ingredientes o direito de propriedade privada como um dos pilares da ideologia capitalista. Passa a prevalecer o Ter em detrimento do Ser. O sujeito convence-se de que será mais reconhecido, respeitado, desejado, através do Ter. Orienta-se a investir maciçamente em bens de consumo, ícones de sucesso e riqueza financeira. A subjetividade, o Ser, o conteúdo, deixa de ser uma questão maior, dado que posses despertam mais olhares de admiração e inveja, sustentáculos da vaidade daquele que atrai tais olhares. O mesmo direito à propriedade privada imiscui-se nas relações íntimas, nos casais, entre as quais o recíproco sentimento de posse sobre o outro, ou seja, de Ter o outro, incendeia o ciúmes e cerceia a liberdade individual.

As pessoas passaram a desejar as mesmas coisas, os mesmos bens de consumo, gerando, como consequência, acirramento competitivo no ambiente capitalista e, consequentemente, maior desempenho trabalhista para incremento da capacidade aquisitiva. O Ter demanda uma disposição mais laboriosa. Requer maior investimento em capacitação pessoal para suplantar concorrentes que disputam um lugar ao sol no terreno laboral, sedentos pelo privilégio de adquirir benesses mercadológicas, ou seja, poder de compra.

No entanto, aquele detentor de recursos insuficientes para a aquisição de seus objetos de desejo,  e com menos disposição para “suar a camisa” para conquistá-los, opta por Parecer, com deletérias consequências, desde endividamento financeiro à espoliação alheia.

Bens de consumo de alto valor aquisitivo são obtidos por pessoas com insuficientes recursos econômicos com vista a inserir-se numa suposta casta social. Subjacente a isso, o velado desejo de atrair a atenção por aquilo que parece-se Ter. As estatísticas atestam que a cada 10 carros adquiridos, 6 deles os são através de empréstimos bancários.  A ansia por bens de consumo, e sua impossibilidade e/ou falta de empenho lícito para acessa-los, configura-se como agente propulsor de eventos públicos ilícitos tais como roubos e latrocínios. A estes, os fins justificam os meios.

A disseminação de produtos genéricos, similares aos originais de marca, e, portanto, menor precificados, é a evidência da necessidade de obtenção de um suposto status social desejado e reverenciado pelo sujeito e os que o cerca.

A cultura do Parecer não limita-se somente à aquisição de bens. Parecer mais jovem, eroticamente mais desejado, passa a integrar a lista das vaidades. Entre as obsessões aquisitivas está a por procedimentos estéticos tais como plásticas faciais e corporais, com todos os riscos que isto possa implicar; afora, é claro, o excesso de roupas, sapatos, bolsas, jóias e outros adereços.

O Parecer ostensivo espraia-se incontestavelmente nas redes sociais onde a tônica é destacar-se por uma suposta posição social e estado de humor. As redes sociais tornaram-se um campo fértil de exibicionismo, superficialidade e fomentação da vaidade. Para outros, uma forma de preenchimento de um vazio inominável, de uma vida sem muito sentido. Esta prática no universo virtual instiga sentimentos hostis de agressividade, rivalidade, inveja, e outros. Acirra a competitividade onde muitos reconhecem-se como concorrentes, ou mesmo adversários. A quantificação de likes norteia a autoestima do Eu.

As tribulações contemporâneas, o horizonte tempestuoso, as condições biopsicossociais, reverberam de forma idiossincrática para cada sujeito. Alguns, apesar das adversidades inerentes à vida, perseveram em suas metas objetivas e subjetivas, conscientes dos valores consonantes com o Ser+Ter. Os que optam pela via menos exaustiva, laboriosa, espinhosa, mais imediata, terminam confluindo na edificação de uma miragem, o Parecer, própria da distante ilusão de óptica que esvanece-se com a aproximação do sujeito observador em relação ao objeto observado.

Erich Fromm, em seu livro “Ser ou Ter”, assevera que “A liberdade humana está restringida na medida em que estamos ligados à posse, obras, e, finalmente, aos nossos próprios eus.”. Para Friedrich Nietzsche, no que tange ao Eu e à liberdade, “ser livre é não termos vergonha de sermos quem somos”.

Sobre Marco Túlio Silva de Oliveira

Marco Túlio Silva de Oliveira
Psicólogo Clínico e Psicanalista CRP 06/113235 Tel: (11) 97044-0111

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