Comportamento

Por que o Hamburguer Vegetal do Burger King não é Vegano?

Em 2.019 completei 10 anos como vegano. E a pergunta que eu mais ouço desde o dia em que decidi excluir de minha vida tudo o que custa a  vida de outros animais é: “O que os veganos comem???!!!” (assim mesmo com três interrogações e 3 pontos de exclamação juntos).

A pergunta não é tão ridícula quanto parece. Basta uma simples visita a um supermercado para entender o quanto a nossa visão sobre alimentação é limitada e manipulada pela indústria.

Eu costumo dizer que comida de verdade não vem em embalagens e no supermercado temos a prova disso. Quase tudo o que é oferecido nesses estabelecimentos está dentro de saquinhos, potinhos, vidrinhos, caixinhas… tudo muito colorido, gostoso, cheio de farinhas, açúcares, conservantes, aromatizantes e etc. E quase tudo tem leite, manteiga e ovos na composição, carnes e queijos como recheio.

O espaço ocupado por hortifrutis nos grandes supermercados além de mínimo é extremamente monótono, sempre com os mesmos produtos: batatas, cenouras, tomates, cebolas, berinjelas, abóboras e alguns tipos de vegetais. 

No setor de frutas a visão limitadora da indústria da alimentação fica ainda mais clara. O Brasil é o 3º maior produtor de frutas do mundo, mais de 600 espécies de frutas são produzidas aqui e 300 delas são genuinamente brasileiras e desconhecidas do povo brasileiro. O setor de frutas dos supermercados limita-se a laranjas, limões, abacaxís, morangos, figos, goiabas, mamões, melões, peras e maçãs.

Interessante também é observar que para a grande maioria das pessoas frutas não são alimento. Elas são no máximo uma sobremesa, um suco ou servem para decorar um prato. Os legumes e verduras se prestam apenas como acompanhamento ou uma salada de entrada. Alimento mesmo são os pratos à base de farinha de trigo, ovos, leite e seus derivados e principalmente as carnes.

Vendo com esses olhos e paladares educados pelas prateleiras dos grandes supermercados (e agora também pelos programas de gastronomia na TV patrocinados pela Indústria da Carne e dos Alimentos), fica mesmo difícil imaginar o que os veganos comem.

A Invasão Vegana

O número de pessoas que se tornam veganas em todo o mundo, dobra a cada dois anos, segundo pesquisas de entidades respeitadas como a Mercy For Animals. Dados oficiais levantados pelo IBGE em 2.008 mostravam que naquela época 8% dos brasileiros se colocavam como vegetarianos e baseado em comparativos de comportamento da Europa, onde a cada 3 vegetarianos 1 é vegano, teríamos então no Brasil mais de 5 milhões de pessoas que não consomem nenhum produto ou serviço que envolva exploração ou sacrifício de animais.

Quando me decidi pelo veganismo lá nos idos de 2.009, era muito difícil encontrar produtos veganos para consumo. A única alternativa possível era aprender a cozinhar e trocar experiências com outros adeptos desse estilo de vida. Grupos se formavam na internet com troca de receitas e dicas preciosas. O veganismo era quase uma contra-cultura, coisa de gueto, clandestina e subversiva.

Dez anos depois, o cenário é completamente outro. Pesquisas não oficiais mais recentes sugerem que estes números estariam hoje entre 12 e 15%, com mais de 8 milhões de veganos, um número muito significativo já que o segmento abrange um público de alto poder aquisitivo (A e B), bom nível sócio-cultural e com hábitos de consumo que acabam por influenciar as demais classes.

Um especial sobre o mercado vegano no Programa Mundo S/A, exibido pela Globo News em 2017, falava de um mercado em franca ascenção, que cresce 40% ao ano. Ou seja, além de ser um grande nicho de mercado, este segmento não deve ser ignorado pois pode significar 10% do faturamento de um restaurante, supermercado, loja de roupas e etc.

Os Oportunistas

A adequação de empresas buscando morder essa fatia substanciosa do mercado gera muitas polêmicas. Quando o Burger King lançou seu hamburger de vegetais, muitos amigos me mandaram mensagens no whatsapp comunicando o que eles julgavam ser para mim uma grande notícia. Vários disseram “olha só, agora você pode comer no BK, não é incrível?”

Felizmente não vi nenhuma propaganda do BK e nem da Seara (que também lançou recentemente uma linha de carne vegetal) se posicionando com empresas com produtos veganos, o que seria uma grande hipocrisia visto que elas promovem direta ou indiretamente a morte de milhares e milhares de animais, criados em condições deploráveis e submetidos à tratamentos e alimentação com hormônios e outros venenos.

Além do que, duvido que o Burger King tenha uma chapa exclusiva para fritar os hamburguers vegetais. Muito provavelmente eles são preparados no mesmo local que os de carne, o que por si só já tiraria qualquer possibilidade de serem classificados como veganos.

No entanto acho super positivo que eles ofereçam essa opção no cardápio, pois isso ajuda pessoas que estão em processo de transição e mostra para os outros que é possível sim comer um delicioso hamburger sem que isso custe a vida de outro ser.

Eu particularmente prefiro comer em hamburguerias ou restaurantes exclusivamente veganos. Em São Paulo e Campinas há muitas opções (veja a minha lista de favoritos no final do texto). Em Jundiaí sei que tem um no centro mas eu não conheço ainda.

Ser vegano é muito mais que simplesmente não comer carne e ter compaixão pelos animais. Ser vegano é uma filosofia de vida que vai contra as práticas políticas e de mercado que visam apenas lucro sem se importar com as consequências sobre a nossa saúde, o bem estar animal e a preservação do meio ambiente.

Comer, mais do que nunca, é uma questão política.

São Paulo

  • Barão Natural, Restaurante e Pizzaria com 7 unidades na cidade. Eu recomendo a da Alameda Barão de Limeira, 1090 e a da Praça Benedito Calixto.
  • Casa Jaya (Nectare), Centro eco-cultural com lanchonete vegana e almoço. Rua Capote Valente, 305 – Pinheiros 
  • Casa Raw, Raw food, Rua Dr Franco da Rocha, 515 – Perdizes
  •  Le Manjue Organique – R. Domingos Fernandes 608, Vila Nova Conceição
  • Wanderlust Bar e Cozinha, Rua da Consolação 204.
  • Nambu Cozinha de Raiz, Rua Alagoas, 651
  • Manai Gastronomia, Alameda Santos, 1219 – Cerqueira Cesar

 

Campinas

  • Vegetalle, Rua Padre Vieira, 1121
  • Expresso Vegano, Rua Oswaldo Cruz 340
  • We Can Veg It, hamburgueria, Rua Doutor Barros Monteiro, 202, Jd. Guanabara
  • Green Bones, hamburgueria, Rua Major Solon 529
  • COMO? Espaço Educador Vegano, Rua José Martins, 585, Barão Geraldo
  • SC Sorvetes em Camadas, Rua Antônio Pierozzi 16, Barão Geraldo.
Os conteúdos dos artigos publicados são de inteira responsabilidade do(s) autor(es), não refletindo, necessariamente, a opinião do corpo ou do conselho editorial do blog.
Marco Antonio Andre

Marco Antonio Andre

Publicitário e Produtor de Conteúdo, especializado em Artes, Cultura, Design, Arquitetura, Decoração e Veganismo.

Comentar

Clique para comentar