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Na Moda e Decoração, a Tendência é Não Seguir Tendências.

Confesso que já gostei muito mais de moda. Na verdade me atraia muito mais o processo criativo dos grandes estilistas do que os desdobramentos pasteurizados e empobrecidos que chegam até nós, pobres mortais consumidores de fast fashion. Desde a morte de Alexander McQueen, o último grande criador, a moda virou uma zona de mesmice e chatice (salvo raras excessões)
Como produtor de conteúdo e gerenciador de redes sociais, acabei me especializando também em arquitetura e design. Desde 2005 quando trabalhei para a Mostra Jundiaí Decor, a estética do viver se tornou uma grande paixão.
Mas moda, arquitetura e design de interiores são segmentos que estão cada vez mais próximos e, assim sendo, sofrendo praticamente do mesmo mal: A banalização promovida pela indústria e uma política de mercado suicida.
Contudo, de uns dois anos para cá venho observando grandes mudanças nos dois segmentos com o surgimento da estética da identidade, como definiu a papisa da moda brasileira Costanza Pascolato.


Na arquitetura e decoração, assim como na moda, a última tendência é não seguir tendências. Esse conceito traz consigo uma força transformadora nos hábitos de consumo impulsionada pela Geração Z (os nascidas entre 1995 e 2010), que praticam novos valores em sua relação com produtos e serviços, baseados na verdade, seja ela individual ou coletiva.
A agência de previsão de tendências WGSN publicando artigos importantes sobre esse novo perfil do consumidor destacando o ultradinamismo, a confiança, o sentimento, as preocupações ambientais, o envelhecimento, o fim da posse e o desejo de comprar de forma independente.


Essa é a primeira geração de nativos digitais. A internet, as redes sociais e as tecnologias mobile, são coisas absolutamente naturais para essa geração hipercognitiva, capaz de integrar a vida virtual à vida offline sem nenhuma dificuldade.
Com total acesso à informação e ao mercado global, esses jovens são “vacinados” contra as práticas do mercado convencional. Praticam a economia compartilhada e fazem uso de aplicativos para praticamente tudo (transporte, alimentação, compras, viagens, estudos, operações financeiras.

Também chamada de True Gen (True Generation) em um estudo da McKinsey & Company, a Geração Z rejeita rótulos e segue princípios como a singularidade, ética, liberdade, comprometimento das marcas com questões sócio-ambientais e o consumo consciente .
Para mim, um momento marcante nessa revolução foi o desfile da italiana Gucci na semana de moda de Milão em 2018, quando o estilista Alessandro Michele mostrou em um cenário que remetia a um hospital abandonado, uma coleção completamente anárquica e que repudiava o poder disciplinatório dos governos, da indústria e da própria moda.

Combinações até então pouco prováveis de estampas, texturas, cores, referências culturais e religiosas, negavam o padrão estético e de beleza vigente, abrindo espaço para a autoexpressão.

Esse desfile foi inspirado no profético “Manifesto Ciborg“, escrito em 1985 por Donna Haraway, professora de História da Consciência na Universidade da Califórnia. Nesse manifesto o personagem de ficção científica surge como metáfora para a crítica da identidade em favor das diferenças, reivindicando possibilidades de uma apropriação politicamente responsável da ciência e da tecnologia, promovendo transformações sociais e políticas.

Sempre atentas às transformações que impactam diretamente no sucesso de seus produtos, grandes empresas como a Gucci, não perdem tempo em oferecer a seus possíveis consumidores aquilo que eles realmente desejam.
O mesmo já ocorre no estilo de morar desta nova geração que recusa a ostentação. A casa da Geração Z é bem mais compacta e funcionalmente mais resolvida do que as casas das gerações anteriores. Nômades, eles não se apegam a um endereço e mudam constantemente conforme o desejo ou a necessidade.

Na decoração eles buscam primordialmente satisfazer suas necessidades reais, a autenticidade e a valorização da tecnologia em equilíbrio com produtos totalmente sustentáveis, artesanais e exclusivos. As casas de ensaios de revistas não seduzem esse novo público e não espere ver na casa de alguém da Geração Z ambientes convencionais como uma sala de jantar, por exemplo.
Ambientes integrados, com conceito aberto, são o pedido da maior parte dos clientes da arquiteta e designer de interiores Larissa Carbone. Segundo ela, “muito mais que um modismo, as pessoas perceberam que os espaços integrados são aproveitados de forma realmente prática, inteligente e permitem maior conexão/convívio entre os moradores”.


O apelo estético está cada vez mais ligado à expressão individual, do que a padrões, estilos e tendências disseminados pela indústria. Entender e atender esse novo cliente é o desafio da indústria, do mercado e dos designers.


A também arquiteta Juliana Medeiros, ganhadora do prêmio iF Design Award 2018, realizou uma série de palestras nas lojas da marca Bontempo ressaltando a necessidade de gerar sensações alinhadas ao processo de criação. “É preciso gerar conexões mais profundas, com propósito e verdadeiras”, diz. “As pessoas não querem apenas ver, querem se encantar. Não querem apenas ouvir, querem e precisam sentir”.
Em um mundo tão tecnológico, “sentir” torna-se um luxo. A necessidade de “sentimentos” cresce à medida que nos tornamos mais cibernéticos. Enquanto as mãos tocam as mais avançadas tecnologias, queremos sentir nossos pés descalços na grama.

 

Fotos: Exame/Abril, Studio Carbone Arquitetura, Gucci, Pinterest, Eurooo, turSites, Araforros,

Sobre Marco Antonio Andre

Marco Antonio Andre
Publicitário e Produtor de Conteúdo, especializado em Artes, Cultura, Design, Arquitetura, Decoração e Veganismo.

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