Saúde

COVID-19

Você já ouviu falar de efeito borboleta? Bem vou explicar um pouquinho, o efeito borboleta é a uma teoria do caos que explica como as coisas estão totalmente interligadas, nela é relatada que um simples bater de asas de uma borboleta do outro lado do mundo ter um impacto direto no nosso dia a dia, podendo gerar um tufão.

Difícil admitir, mas de uma certa maneira essa visão está correta. Pois um vírus selvagem, com estrutura molecular primitiva, que recebeu o nome de CORONA (coroa em espanhol), pode por uma série de eventos, sair do seu hospedeiro inicial e chegar a nossa espécie, infectando uma única pessoa. E através de apenas um infectado chegarmos a uma pandemia mundial, com impacto social e econômico nunca vivenciado.

E é isto, somos inteligentes, detentores de uma tecnologia vasta, mas frágeis basta um pequeno microrganismo que nunca tivemos contato aparecer, que milhões de nos ficamos doentes e milhares evolui para óbito. O medo, e a incerteza se instale de uma forma mais rápida que o contágio do vírus.

E agora nós brasileiros, o que iremos fazer? A cada dia que passa uma nova verdade surge, medicina é assim uma ciência de verdades transitórias, especialistas no assunto já mudaram várias vezes de opinião, governantes divergem de opinião e a grande massa não sabe o que fazer. Sendo assim vou expor algumas coisas, para que você reflita e chegue a uma opinião sobre o assunto.

Vamos analisar os fatos cronologicamente, em dezembro de 2019 um médico chinês muito respeitado observou que varias pessoas começaram a ficar doentes de forma incomum em Wuhan(cidade chinesa que foi o epicentro da pandemia), porem o mesmo não foi ouvido e foi obrigado pelo governo chinês a parar de falar sobre o assunto. Então foi cometido nosso primeiro erro, não isolamos as pessoas contaminadas com o novo vírus, e assim as pessoas dessa cidade que é portuária e exporta vários produtos começaram a propagar o vírus de forma ainda considerada “pequena” para o mundo. Mas que os números de infectados começaram a aumentar e o número de mortes também, e assim perdemos nossa primeira oportunidade de conter a doença.

                Após observar que realmente era uma epidemia chinesa deveríamos fazer uma contenção do vírus, ou seja, isolamento total, ninguém entra mais e ninguém sai mais da China, isso aconteceu? Não! Vários estrangeiros foram mandados para seus países de origem, e assim de forma novamente sorrateira o vírus começou a aparecer nos países da Ásia e Oriente médio e depois nos países da Europa e nas Américas. E fomos aprendendo sobre o vírus, observamos que ele era muito contagioso, e com um potencial de letalidade baixo, porem expressivo quando colocados em números absolutos, e pior pela grande quantidade de pessoas infectadas ao mesmo tempo, os sistemas de saúde começaram a ficar superlotados, e medidas emergenciais precisaram ser adotadas.

                Mesmo com tudo isso acontecendo, nós no Brasil continuamos vivendo nossa vida normalmente, o carnaval aconteceu, nossos executivos continuaram entrando e saindo do país com tranquilidade, as pessoas viajando para Europa felizes. Mas em 24 de fevereiro bem no meio do nosso carnaval, um empresário de 61 anos foi diagnosticado com COVID 19, ele teve todos os sintomas clássicos e tinha voltado de uma viagem de 12 dias na Itália (o segundo país mais afetado pandemia). Mas e nesse momento vendo o erro da China e de outros países, o que fizemos? Nada! Continuamos vivendo como se o vírus não fosse nos atingir, as viagens continuaram, o carnaval terminou, e a economia não podia parar, então não podíamos ter medidas alarmistas.

                E chegamos ao estágio III da contaminação, quando temos propagação local da doença e como foi mostrado inúmeras vezes a curva de crescimento do vírus é exponencial começa silenciosa e após alguns dias ela sobe ate atingir grande parte da população e só assim estabiliza e desce. Hoje dia 28 de março de 2020 as 16 horas nos temos 3477 casos com 93 óbitos, chegando a uma taxa de mortalidade de 2,7%; e nossa curva está a cada dia que passa subindo, e longe de chegar à estabilidade.

Curva da epidemia no Brasil até o dia 28/03/2020

                E assim 33 dias após o primeiro caso, o caos está instalado, ninguém sabe como conter o vírus, e paramos tudo, de trabalhar, de produzir, a nossa rotina se transformou em conter a transmissão do vírus. Algo que nunca aconteceu antes. E como tudo no Brasil, se transformou em política e em um pânico nacional. O problema e que quando estamos em pânico nos deixamos de lado a racionalidade, não pensamos no impacto econômico parar tudo poderia dar, e lembra faze política nesse momento está deixando a população confusa e desorientada.

                Não sou um especialista em epidemiologia, mas após ler muito sobre o assunto, e ajudar os hospitais que eu trabalho a se transformar para receber muitos casos, refleti sobre alguns pontos. Nós estamos nos preparando para uma guerra, disponibilizando vários leitos de uti, mudando enfermarias, dentre outras medidas na assistência hospitalar visando melhorar um sistema de saúde que por anos sofre com a corrupção e assim pouquíssimos recursos. Por isso os nossos governantes têm muito medo do surto, porque a saúde é onde eles ganham e perdem eleições. E do outro lado a população está acostumada com tão pouco e pagando altos valores de impostos, se contenta com o que é oferecido. Mas nessa hora da pandemia não se pode deixar faltar, recursos para saúde certo?

                Outra medida além de melhorar a assistência à saúde é o isolamento dos casos e isolamento social total, para suprimir o número de casos, medida a qual foi aparentemente tomada com 1 mês de atraso. Com o primeiro caso já teria que instituir um isolamento social sustentado, suspendendo grandes aglomerações; eventos etc., para não chegarmos ao ponto de instituir o isolamento horizontal. O impacto social e econômico que este isolamento irá causar, acredito que nenhum especialista será capaz de dizer a sua magnitude.

                E com tudo isso pensamos como o tema saúde e economia podem estar tão interligados? Acredito que a maioria de nós nunca pensou tanto nesses 2 pontos. Trabalhar e ficar doente? Ou ficar sem trabalhar e não ter dinheiro? Bem se colocarmos 10 pessoas em uma mesa para chegar a uma decisão unanime, com certeza isso não irá acontecer. O dilema ético-moral é entre Vida x Economia? Ou entre Vidas x Vidas? Um caixa de supermercado pode manter-se trabalhando e um outro profissional tem que se manter isolado? E na assistência médica podemos atender uma pessoa com COVID, mas vou mandar uma pessoa com câncer não procurar o serviço médico mesmo precisando de um atendimento? Em todos os cenários não daria para quantificar quem é mais importante e quem pode mais ou menos. A questão é como chegar ao meio termo?

                Bem para finalizar, após todo esse texto,  entendo que o que está acontecendo é muito novo, acho que nossa melhor saída é primeiro não ficar apavorado, o medo nos deixa cegos e burros, assim ficamos incapazes de transcender ao interesse próprio e entender o bem comum. Peço aos nossos governantes e junto com nossos diretores de saúde em todos os âmbitos, que tenham sabedoria e discernimento nesse momento, para parar de fazer política e pensar no bem de todos, que percebam que a doença tem impacto social e econômico, e que devem ser colocados na balança. E se perdemos o tempo de controlar o surto no início, vamos traçar novos planos de isolamento social sustentável, para que o impacto econômico seja menor. E medidas para melhora definitiva da assistência à saúde, com investimento o ano todo. Pois não é só o COVID que mata, a dengue mata, a influenza mata, o câncer mata(…).

Obrigado, Boa sorte para nós.

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Dr. Leonardo Fiuza

Dr. Leonardo Fiuza

Médico pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, especializado nas áreas de cirurgia geral, cirurgia bariátrica e medicina esportiva.
Coordenador do Pronto Socorro de Cirurgia e Hospital Paulo Sacramento e Sócio Fundador das Clínicas SimpleSaúde e Unique Instituto de Cirurgia,.

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