Comportamento

Foda-se (ou os espinhos da Flor do Lácio)

Puritanos fujam para as montanhas. Neste texto saio em defesa do palavrão, essa forma de expressão injustiçada, monstrificada e vítima de preconceitos.

Imagine o que seria a vida sem os palavrões. Sem Dercy Gonçalves, sem Nelson Rodrigues, sem João Ubaldo, sem Plínio Marcos… Imagine assistir um jogo de futebol sem poder falar um puta que o pariu! Impossível. Proibir palavrões é tirar da língua popular o que ela tem de mais espontâneo, verdadeiro e visceral. Então, este é um manifesto em defesa dos espinhos da Flor do Lácio.

O Dicionário Aurélio define Palavrão como um substantivo masculino que pode ser entendido como palavra obscena, grosseira ou pornográfica, cujo uso pode ofender a quem dela é alvo.
Elaborados e produzidos no cortex cerebral, os palavrões são uma manifestação originária no Sistema Límbico do cérebro humano, região responsável pelas nossas emoções, principalmente as mais instintivas.
Ou seja, os palavrões são uma forma natural e absolutamente sincera de expressão, que quebra o fino verniz da hipocrisia social que define o que é feio e o que é bonito, o que pode e o que não pode, o que é certo e o que é errado.
Dizem que o palavrão é uma forma de agressão, seja para ofender ou escandalizar. Geralmente com cunho escatológico, sexual ou até blasfêmico, seriam eles o mais próximo que uma palavra pode chegar de um soco na cara. Ou uma pisada no pescoço, ou um tiro a queima roupa…
De qualquer maneira sempre vou preferir um palavrão à violência física. Palavras não têm o poder de machucar fisicamente uma pessoa mas pode ajudar a aliviar o stress de quem os profere.

Fernanda Torres em “A Casa dos Budas Ditosos”, adaptação para o teatro da obra de João Ubaldo.

Uma grande amiga minha diz que cada “foda-se” que você engole, para manter sua imagem de pessoa educada e fina, é um câncer que você desenvolve. Acho que eu concordo com ela. Não só eu mas grande parte do mundo Ocidental. Já reparou na quantidade de “fuck” e “fuck you” que aparecem nos filmes norte americanos. Isso sem falar nos clássicos “mother fucker” e “shit”.
Mas os palavrões não são apenas xingamentos. Repare na quantidade de “palavras indecentes” que aparecem na maravilhosa obra de Jorge Amado. Ele era um mestre no uso de palavrões, trazendo preciosidades regionais e muitas vezes colocando uma imensa carga poética nessas também chamadas “palavras de baixo calão”.
Vamos abrir um parênteses aqui para falar dessa expressão: Calão significa baixo e tem sua origem em uma palavra cigana, CALÓ. Esta quer dizer “negro”, e era usada de forma preconceituosa em relação aos ciganos da região sul da Espanha, que eram mais morenos. Ou seja, palavras de “baixo calão”, além de ser um pleonasmo vicioso, é uma expressão carregada de preconceito, o que já a caracteriza como um palavrão nos dias atuais.

Versos de Creep, do Radiohead, minha música favorita.

Seguindo com o tema deste texto, os palavrões possuem ainda variações de interpretação conforme a época, local ou o grupo de pessoas. Por exemplo: Lazarento já foi um super palavrão, isso enquanto a lepra ainda era um verdadeiro atestado de óbito para quem a contraía. Com o tempo, a evolução da medicina e os tratamentos que praticamente erradicaram a doença, o xingamento deixou de existir. Xingar alguém de lazarento hoje é fora de moda e de sentido.
Outro exemplo é a palavra rapariga. Em Portugal é apenas uma mocinha. No nordeste brasileiro é uma moça mal falada, daquelas que são bem facinhas ou até mesmo prostitutas.
Quanto ao grupo, os palavrões são frequentes e bem vindos em conversas masculinas, por exemplo. Em um churrasco pós futebol, um grupo de amigos pode falar mais palavrões que uma play list inteira de funk. E sempre na brodagem, sem ofensas.
Aliás o palavrão muitas vezes reforça um elogio! Uma coisa é você dizer que o João joga muito bem, outra infinitivamente superior é dizer que o João é foda, joga pra caralho!

O consagrado artista chinês Ai Weiwei

Em 1995 o renomado artista plástico chinês Ai Weiwei deu inicio a um projeto chamado “Estudo de Perspectiva”, quando fotografou sua própria mão fechada e com o dedo anelar em riste, de frente para a Praça da Paz Celestial, onde está enterrado Mao Tsé-Tung. O foda-se em linguagem de sinais era um recado claro ao autoritarismo e à supressão da liberdade de expressão.
Weiwei repetiu a pose em frente à vários outros monumentos de dezenas de cidades pelo mundo. As fotos foram expostas em 2012 em Paris e se tornaram um símbolo de contestação, como toda a obra desse artista que vive em regime de liberdade controlada em seu próprio país.

Imagens que fazem parte da obra Estudo de Perspectiva, de Ai Weiwei

Confesso que adoro um bom palavrão e acredito que bem usados, na hora certa e na entonação certa, eles produzem muito mais efeito que um discurso com curadoria de palavras. Um foda-se bem proferido é extremamente libertador.
Na minha opinião palavras das quais deveríamos nos envergonhar são: corrupção, genocídio, fascismo, preconceito, trabalho escravo, enriquecimento ilícito, desigualdade social, destruição do meio ambiente… enfim, essas coisas todas com as quais convivemos harmonicamente sem nos escandalizarmos.

Marco Antonio Andre

Publictário e produtor de conteúdo.

Imagens: Pinterest

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Marco Antonio Andre

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Publicitário e Produtor de Conteúdo, especializado em Artes, Cultura, Design, Arquitetura, Decoração e Veganismo.

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