Comportamento Cultura

“TRISTE DE QUEM É FELIZ, VIVE PORQUE A VIDA DURA”

Em uma tarde qualquer de 1978 eu, então com 15 anos de idade, entrei pela primeira vez em uma livraria. Era a extinta Don Quixote, do saudoso Claudio Trevisan. Até então todos os livros que eu tinha lido eram da Biblioteca Municipal ou comprados pelo Clube do Livro, uma empresa vendia através de catálogos para associados, um primo distante do e-commerce e da Amazon.


Ao entrar na Don Quixote e me deparar com aquelas infinitas prateleiras repletas de livros, me senti totalmente perdido. Não sabia nem para onde olhar. Fui salvo por Marcos Cesar Duarte, o Marquinhos, que trabalhava na livraria. Pedi a ele que me indicasse alguns livros e ele respondeu com “As Ondas” de Virgínia Woolf e “O Eu Profundo e Os Outros Eus” de Fernando Pessoa.
Marquinhos, que até hoje é um amigo querido, não tinha a menor ideia do quanto aqueles dois livros influenciariam e mudariam o sentido da minha vida. Tenho os dois exemplares até hoje e são livros que volto a ler de tempos em tempos. O do Pessoa é uma Bíblia que sempre abro de forma aleatória e leio o versículo/poema que invariavelmente responde meus questionamentos do momento.


Foi em “O Eu Profundo e Os Outros Eus” que comecei a conhecer a obra de Pessoa e seus heterônimos e me apaixonei de imediato. Um dos poemas que este livro tatuou na minha alma é “Segundo: O Quinto Império” onde ele fala do constante sentimento de insatisfação que nos move, sobre a necessidade genética que temos de sair da zona de conforto, de nos arriscarmos, de aprender, de conhecer, de explorar. (veja o poema no final deste post).


“Triste de quem é feliz, vive porque a vida dura… Ser descontente é ser Homem… “. Imagine o impacto que esta reflexão causou em um adolescente cuja a alma clamava por libertar-se e experienciar tudo o que a vida pudesse oferecer.
Naquela época eu já questionava as limitadas opções de modelos de vida impostos pela sociedade e o sistema. Os padrões de felicidade não atendiam os meus anseios e eu jamais conseguiria viver como um funcionário concursado do Banco do Brasil como desejava minha avó ou como um empedernido advogado como desejava meu pai.
A quem realmente interessa que sigamos esses padrões preestabelecidos? Que sejamos produtivos e consumidores, incapazes de questionar, cegamente obedientes e ainda possamos ser felizes mesmo que escravizados, prisioneiros e impedidos de sermos quem somos?


A direção, ou melhor, as direções que dei à minha vida a partir de então foram sempre seguindo a visão da alma alimentada pelas reflexões de muitos autores e escritores. Depois de Woolf e Pessoa vieram Clarice, Kerouac, Burroughs, Quintana, Rosa, Nietzsche, Sartre, Saramago… uma longa lista que eu precisaria de uma nova encarnação para revisitar.
Agora, durante o confinamento forçado pela pandemia, me vi preso em casa e tendo a oportunidade de reler alguns autores e refletir sobre muitos assuntos. Ao mesmo tempo pude observar a reação das pessoas diante desta estupenda oportunidade de repensarem suas vidas, de descobrir o que realmente é essencial, de olharem para si próprios e fazer questionamentos sobre o meio. Um exercício difícil. Impossível para muitos. Infelizmente.

42 anos separam aquele rapazinho que entrou pela primeira vez em uma livraria do homem que sou hoje. Nessa longa trajetória muitas foram as experiências, vivências e mudanças mas mantenho a paixão pelos livros e aquela insatisfação que me faz sempre viver fora da zona de conforto.


Hoje, quando o governos praticam a censura e demonstram claramente o objetivo de inviabilizar o acesso à cultura e a formação intelectual, neutralizando a capacidade de raciocínio, a construção de uma opinião própria e criando uma geração de medíocres, me apego aos versos que clamam a grandeza da visão da alma contra a opressão dos tiranos: “Que as forças cegas se domem pela visão que a alma tem.”

SEGUNDO: O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer da asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição de raiz
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

(Fernando Pessoa)

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Marco Antonio Andre

Marco Antonio Andre

Publicitário e Produtor de Conteúdo, especializado em Artes, Cultura, Design, Arquitetura, Decoração e Veganismo.

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