Cultura

Há algo de podre no reino do Vaticano.

O Clube dos Caras, em parceria com a Casa das Letras, indica o livro "No Armário do Vaticano", de Frédéric Martel, que aborda de forma incisava a relação entre a homossexualidade e o poder dentro de uma das instituições mais preconceituosas do nosso tempo.

Começo este texto parafraseando a fala do personagem Marcelo, dita a Hamlet na peça de William Shakespeare, que fala dos fatos ocultos atrás dos próprios fatos.
Todo mundo sabe, em maior ou menor grau, que nem tudo é flores na Santa Sé. Pelo mundo afora pipocam de tempos em tempos escândalos de assédio sexual e/ou pedofilia e isso nos leva a imaginar que dentro da Cidade Estado encrustrada no meio da cidade de Roma, residência do papa e centro do poder da Igreja Católica, essas e outras coisas também podem acontecer.
Tenho um amigo que vive em Roma e frequenta a cena gay da cidade. Ele sempre conta sobre a presença de padres nas boates e saunas, bem como sobre festas em apartamentos de religiosos do alto escalão da Igreja no melhor estilo “sexo, drogas e música sacra”.
E então vem a pergunta: Por que a homossexualidade é tão condenada por essa instituição que, ao que tudo indica, possui um número bastante expressivo de gays?


O livro “No Armário do Vaticano – Poder, Hipocrisia e Homossexualidade”, de Frédéric Martel (Editora Objetiva, 2019), vem justamente para responder essa questão.
Resultado de vários anos de investigação jornalística, muitas viagens e centenas de entrevistas, a obra de Martel traz claras evidências sobre a forma sistêmica de uma verdadeira “conspiração gay” na cúpula da Igreja Católica, sustentada por uma cultura de acobertamentos mútuos e que se espalha por todo o mundo.
Além das coisas que acontecem dentro do Vaticano, o livro traz revelações surpreendentes como as relações entre o general Pinochet, os círculos de gays católicos de direita no Chile e Angelo Sodano (que designou muitos deles na hierarquia chilena); a habilidade que teve a junta militar argentina, na década de 1970, para ameaçar o então núncio, Pio Laghi, devido ao uso que este fazia dos garotos de programa; o escandaloso nível de abusos sexuais na Arquidiocese de Havana que levou o papa Bento XVI a abdicar; as conexões de Alfonso López Trujillo com traficantes de droga na Colômbia, assim como sua violência sexual contra garotos de programa em Medelín.


É importante destacar que não se trata de um livro sobre sexo, não é contra a Fé e muito menos um trabalho pautado na homofobia. Martel é um respeitado jornalista e escritor francês, assumidamente gay, que tece uma complexa análise sociológica sobre a realidade da presença da homossexuais na cúpula do Vaticano, na cúria, e na Igreja Católica como um todo, alimentando fortemente o preconceito entre seus fiéis, se posicionando contra os meios de prevenção à AIDs e sendo um dos principais entraves nas conquistas de direitos da comunidade LGBTQIA+ em todo o mundo.


A leitura deste livro ajuda a entender com maior profundidade a polêmica gerada pela declaração do Papa Francisco no documentário do cineasta americano-russo Evgeny Afineevsky, apresentado no Festival de Cinema de Roma em 21 de outubro. Ao defender abertamente o direito de casais do mesmo sexo à união civil, ele mexeu em um vespeiro grande. E há quem tema pela vida do Sumo Pontífice, já que assassinato de papas é uma prática bastante comum no Vaticano desde os tempos dos Bórgia, nos séculos XV e XVI.

“No Armário do Vaticano – Poder, Hipocrisia e Homossexualidade”, de Frédéric Martel é o primeiro livro indicado pelo Clube dos Caras na parceria com a livraria Casa das Letras.


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Marco Antonio Andre

Marco Antonio Andre

Publicitário e Produtor de Conteúdo, especializado em Artes, Cultura, Design, Arquitetura, Decoração e Veganismo.